terça-feira, 29 de agosto de 2017

Por Que Sou Agnóstico? de Clarence Darrow (1929)



Um agnóstico é alguém que duvida[1]. A palavra é geralmente aplicada àqueles que duvidam da veracidade dos credos religiosos aceitos pelas fés. Todos são agnósticos quanto às crenças que não aceitam. Católicos são agnósticos aos credos Protestantes, e os Protestantes são agnósticos aos credos da fé Católica. Qualquer um que pensa é um agnóstico a respeito de algo, caso contrário ele precisa acreditar que é dotado de todo o conhecimento. E o plano apropriado para uma pessoa assim é no manicômio ou na casa para pessoas de mente debilitada. Popularmente, no mundo ocidental, um agnóstico é aquele que duvida ou que descrê das principais doutrinas da fé Cristã.  

Eu diria que a crença em pelo menos três dogmas é necessária para a fé de um Cristão: uma crença em Deus, uma crença em imortalidade, e uma crença em um livro sobrenatural. Miríades de seitas Cristãs requerem muito mais, mas é difícil de imaginar que se poderia ser um Cristão, sob qualquer significado inteligente da palavra, com menos. Ainda assim, existem algumas pessoas que se dizem cristãs sem aceitar a interpretação literal de toda a Bíblia, e que dão mais crédito a algumas porções do livro do que a outras.

Sou um agnóstico quanto à questão de Deus. Penso que seja impossível para a mente humana acreditar em um objeto ou coisa a não ser que isso possa constituir uma imagem mental de tal objeto ou coisa. Uma vez que o homem deixou de adorar abertamente um Deus antropomórfico e falou vagamente e não inteligentemente sobre alguma força no Universo, superior ao homem, que é responsável pela existência do homem e do Universo, não se pode dizer que acredita em Deus. Alguém não pode crer em uma força, exceto uma força que permeia a matéria e não é uma entidade individual. Para crer em uma coisa, uma representação dessa coisa precisa ser formulada na mente. Se alguém é questionado se crê em um animal como um camelo, imediatamente ocorre-lhe à mente a imagem de um camelo. Esta imagem provém da experiência ou do conhecimento desse animal, adquirido de alguma maneira ou outra. Nenhuma imagem do tipo provém, ou pode provir, da ideia de um Deus que é descrito como uma força.    

O homem sempre especulou acerca da origem do universo, incluindo sua própria. Temo, assim como Herbert Spencer, que se o universo teve uma origem – e se teve – essa origem jamais será conhecida pelo homem. O cristão diz que o universo não poderia dar origem a si mesmo; que deve ter havido algum poder superior capaz de fazê-lo. Cristãos tem sido obcecados por anos a fio com o argumento de Paley de que se uma pessoa passando através de um deserto depara-se com um relógio e examina-lhe as engrenagens, os ponteiros, o revestimento e o cristal, satisfar-se-ia de vez que algum ser inteligente capaz de projetá-lo o fez. Sem dúvida que isto é verdade. Nenhum homem civilizado duvidaria de que alguém construiu o relógio. A razão pela qual ele não o faz se deve a ele estar familiarizado com relógios e outros utensílios forjados pelo homem. Já para o selvagem o relógio não seria familiar e ele não teria ideia alguma acerca do assunto. Há uma porção de cristais e rochas de formação natural que são tão intrincadas quanto as de um relógio, mas mesmo para um homem inteligente elas não carregam nenhuma implicação de que alguma inteligência poderosa os fez. Não carregam nenhuma implicação desse feitio porque ninguém tem qualquer conhecimento ou experiência de alguém fazendo esses objetos naturais que a todo lugar abundam.       

Dizer que Deus criou o universo nada nos explica do começo das coisas. Se somos ditos que Deus criou o universo, imediatamente surge a pergunta: Quem criou Deus? Existiu ele sempre, ou houve algum poder por detrás disso? Criou ele a matéria do nada, ou sua existência com ela coexistia? O problema permanece. Qual a origem disso tudo? Se, por outro lado, alguém diz que o universe não foi criado por Deus, que ele sempre existiu, ele tem a mesma dificuldade a confrontar. Dizer que o universo estava aqui ano passado, ou há milhões de anos atrás, nada nos explica quanto à sua origem. Continua a ser um mistério. Quanto à questão da origem das coisas, o homem só pode indagar, perguntar e adivinhar.

Quanto à existência da alma, as pessoas podem crer ou descrer. Todos sabem da origem do ser humano. Sabem que proveio de uma única célula no corpo da mãe, e que esta célula constituía uma das dez mil no corpo dela. Antes da gestação a célula foi fertilizada por um espermatozoide oriundo do pai. Foi um dos, talvez, bilhões de espermatozoides fornecidos por ele. Quando a célula é fertilizada, dá-se início a um processo químico. A célula divide-se, multiplica-se e aumenta-se aos milhões de células, e finalmente dá luz a uma criança. Células morrem e nascem durante a vida do indivíduo até que finalmente sucumbem, e isso é a morte.

Se há uma alma, o que é isso, de onde isso veio, e aonde isso vai? Pode alguém que é guiado por sua razão possivelmente imaginar uma alma independente de um corpo, ou o lugar em que isso residiria, ou as características básicas disso, ou qualquer coisa concernente a respeito? Se é justificado o homem ter qualquer crença ou descrença quanto ao assunto, ele é autorizado a descrer na alma. Não existe evidência alguma sequer que prove uma coisa tão impossível.

Muitos cristãos baseiam sua crença na alma e em Deus calcando-se na Bíblia. Estritamente falando, não existe tal livro. Para constituir a Bíblia, sessenta e seis livros atam-se a um só volume. Estes livros foram escritos por muitos em diferentes épocas, e ninguém sabe quando escreveram ou quais eram as identidades dos autores. Alguns dos livros foram redigidos por inúmeros autores em épocas distintas. Estes livros contêm toda sorte de conceitos contraditórios acerca da vida, da moral e da origem das coisas. Entre o primeiro e o último quase um milênio se interpõe, mais tempo do que passou desde a descoberta da América por Colombo.

Quando eu fora garoto, os teólogos costumavam afirmar que a prova da inspiração divina da Bíblia jazia nos milagres e nas profecias. Porém um milagre significa uma violação de uma lei natural, e não pode haver prova imaginável que seja suficiente para demonstrar a violação de uma lei natural; mesmo que a prova pareça denunciar uma violação, isso só mostra que não estávamos a par de todas as leis naturais. Alguém que crê na veracidade do homem por conta de sua longa experiência com o homem o faz porque o homem sempre contou uma história consistente. Mas nenhum homem contou tão consistentemente uma história como a natureza.

Se alguém dissesse que o Sol não se ergueu, valendo-se da expressão ordinária, no dia anterior, seu ouvinte não acreditaria nisso, mesmo que tivesse dormido o dia todo e soubesse que seu informante fosse um homem da mais completa confiança. Ele não acreditaria nisso porque o relato é inconsistente com a conduta do Sol em todas as épocas pretéritas.

Primitivos e mesmo povos civilizados cresceram tão acostumados a crer em milagres que recorrentemente atribuem à mais simples das manifestações da natureza a agentes dos quais nada sabem. Eles o fazem quando a crença é sobejamente inconsistente com o conhecimento e a lógica. Eles creem em antigos e novos milagres. Pregadores oram por chuva, sabendo muito bem que nenhuma oração foi atendida alguma vez. Quando um político está às últimas, ele ora a Deus a fim de serem curado, e o político quase sempre morre. Os clérigos modernos que oram pela chuva ou pela saúde do político não são nem um pouco mais inteligentes neste assunto do que o homem primitivo que reconheceu no nascer e pôr do Sol, no nascimento de um indivíduo, no crescimento de uma planta, no estrondo de um relâmpago, na enchente, em quaisquer manifestações da natureza e da vida, um milagre.

Quanto às profecias, escritores inteligentes deixaram-nas de lado há muito. Em todas elas, fatos são fabricados a fim de adequarem-se à profecia, ou a profecia fabricada após os fatos, ou os eventos, não têm nenhuma relação sequer com a profecia. Interpretações das mais esquisitas, estranhas e inimagináveis são proferidas com o intuito de explicar afirmações simples, de modo que uma profecia seja reivindicada.

Pode alguma pessoa racional acreditar que a Bíblia é qualquer coisa senão um documento humano? Atualmente sabemos muito bem de onde provieram vários de seus livros, e de quando foram escritos. Sabemos que foram escritos por seres humanos que nada sabiam de ciência, da vida, e que foram influenciados pelas bárbaras moralidades de tempos primitivos, e que foram grosseiramente ignorantes da maior parte das coisas que os homens de hoje sabem. Por exemplo, é dito em Gênesis que Deus fez a Terra, fez o Sol para iluminar o dia e fez a Lua para iluminar a noite, e em um versículo dispõe das estrelas dizendo que “ele também fez as estrelas.” Isto foi plenamente escrito por alguém que não tinha a menor ideia do que as estrelas eram. O homem, com o recurso de seu telescópio, tomou vista dos céus e descobriu estrelas cujos diâmetros são tão grandes quanto a distância entre a Terra e o Sol. Sabemos que o Universo é preenchido por estrelas e sóis e planetas e sistemas. Todo novo telescópio apontado ao longe em direção aos céus descobre mais e mais mundos e sóis e sistemas nos recantos infindáveis do espaço. Os homens que redigiram Gênesis criam, naturalmente, que este pequeno grão de lama a que chamamos Terra era o centro do universo, o único mundo no espaço, feito para o homem, o único ser digno de consideração. Estes homens criam que as estrelas pairavam logo acima da Terra, e que no firmamento foram colocadas para que o homem as olhassem, e para mais nada. Todos sabem hoje que esta concepção não é verdade.

A origem da raça humana não é um assunto tão sem saída quanto já a foi. Deixando-se de lado Deus criando Adão a partir de seu manuseio da poeira da Terra, há alguém que acredite que Eva foi feita a partir da costela de Adão? Que a cobra andava e falava no Jardim do Éden? Que ela tentou Eva para persuadir Adão a comer a maçã, e que é em virtude deste ocorrido que toda a raça humana foi sentenciada ao inferno? Que por quatro milênios não houve chance alguma de qualquer humano ser salvo, mesmo que nenhum deles tivessem nada que ver com a tentação; e que finalmente os homens puderam ser salvos com o filho de Deus morrendo por eles, e que a não ser que os seres humanos acreditem nesta tola, impossível e cruel estória eles estão condenados ao inferno? Pode alguém com inteligência realmente crer que uma criança nascida hoje deveria ser condenada porque uma cobra tentou Eva e Eva tentou Adão? Crer nisso não é louvar a Deus; é louvar ao Diabo.

Pode alguém considerar este esquema de criação e danação moral? Isso desafia qualquer princípio de moralidade, conforme concebido pelo homem. Pode alguém acreditar atualmente que todo o mundo foi destruído por um dilúvio, salvo exceção Noé e sua família e o macho e fêmea de cada espécie de animal embarcado na Arca? Existe quase um milhão de espécies somente de insetos. Como Noé fez para reuni-los e certificar-se de pegar um macho e uma fêmea para reproduzir a vida neste mundo após o dilúvio dissipar-se as forças? E por que deveriam todos os animais menores serem destruídos? Foram eles incluídos no pecado do homem? Esta é uma estória que não poderia convencer uma criança de cinco anos de idade razoavelmente inteligente nos tempos de hoje.  

Creem as pessoas inteligentes que várias línguas faladas pelo homem na Terra vieram de uma confusão de línguas na Torre de Babel, uns quatro mil anos atrás? Línguas humanas espalharam-se por toda a face do globo terrestre muito antes desta época. Existem evidências agora de civilizações muito mais antigas que a data que os patranheiros fixaram para a construção da Torre, e mesmo antes da data reivindicada para o dilúvio.

Creem os cristãos que Josué fez o Sol manter-se parado, a fim de alongar a duração do dia, para poder findar uma batalha? Que tipo de pessoa escreveu esta estória, e o que ela sabia sobre Astronomia? É cristalino que o autor imaginou que a Terra era o centro do universo e permanecia inerte nos céus, e que o Sol ou orbitava-lhe ou era puxado por entre seu caminho todo dia, e que pará-lo aumentaria a duração do dia. Sabemos agora que se o Sol tivesse parado às ordens de Josué, e que tivesse permanecido parado até agora, a duração do dia não teria sofrido alteração. Sabemos que o dia é determinado pela rotação da Terra em torno de seu eixo, e não pelo movimento do Sol. Todos sabem que esta estória simplesmente não é verdade, e nem são muitos que até mesmo pretendem crer nesta fábula infantil.

E quanto ao conto em que Balaão tem uma conversa com seu burro, provavelmente em Hebreu? É verdade, ou é uma fábula? Muitos jumentos falaram, e alguns sem dúvida em Hebraico, mas eles não eram bem dessa raça de burros. Depende a salvação da crença em uma aberração[2] dessas?

Acima de todo o resto, creria qualquer ser humano atualmente que uma criança nasceu sem um pai? Ainda assim, essa estória não fora de toda despropositada no mundo antigo; a Bíblia consta de pelo menos três ou quatro relatos de nascimentos milagrosos, inclusos João Batista e Sansão. Concepções imaculadas eram comuns no mundo Romano na época e no lugar onde o Cristianismo realmente teve seu nascituro. Mulheres eram levadas aos templos para serem inoculadas por Deus a fim de que seus filhos pudessem ser heróis, significando, geralmente, carniceiros atacadistas [3]. Júlio César foi uma concepção milagrosa – de fato, elas foram comuns por todo o mundo. Quantas estórias de nascimentos milagrosos um Cristão de agora é esperado a crer?  

Nos dias de formação da religião cristã, ficar doente significava ser-se possuído por demônios. Cristo curou o enfermo por expulsar-lhe os diabos, e estes possuíram os suínos, os quais atiraram-se ao mar. Existe uma certa dúvida, mas quais eram simplesmente as crenças dos povos primitivos? Alguém crê que enfermidade significa a possessão do corpo por diabos, e que tais devem ser expulsos do ser humano de modo a curar-se? Alguém crê que um morto pode retornar à vida? Os milagres registrados na Bíblia não são as únicas instâncias de mortos retomando a vida. Por todo o mundo encontramos testemunhos de tais milagres: milagres em que não se espera de nenhuma pessoa a crer, a menos que seja um milagre de seu tipo. Ainda hoje em Lourdes, e ao longo de todo o presente mundo, de Nova Iorque a Los Angeles e subindo-se e descendo-se as terras, pessoas acreditam em ocorrências miraculosas, e até mesmo no retorno dos mortos. Superstição é ubiquamente prevalente no mundo. Foi-a desde o começo, e muito provavelmente a será até o fim.  

As razões para o agnosticismo são abundantes e convincentes. Consequências fantásticas e tolas e impossíveis são gratuitamente reivindicadas pela crença religiosa. Toda civilização de qualquer época é posta em consequência da religião. Toda a crueldade e erro e ignorância da época não tem relação para a religião.  

A verdade é que a origem do que chamamos de civilização não se deve à religião, mas ao ceticismo. Enquanto os homens aceitassem milagres sem questionamento, enquanto cressem em pecado original e na via para a salvação, enquanto acreditassem em um inferno onde o homem seria mantido pela eternidade às custas de Eva, não haveria razão alguma para civilização: a vida seria curta e a eternidade longa, e os negócios da vida seriam a preparação para a eternidade.  

Quanto todo evento era um milagre, quanto não havia nenhuma ordem ou sistema ou lei, não havia ocasião para se estudar qualquer assunto, ou interessar-se em qualquer coisa exceto uma religião que cuidava da alma. Conforme o homem passou a duvidar das concepções primitivas concernentes à religião, e não mais aceitou sua literalidade e os ensinamentos miraculosos de textos antigos, propôs-se, ele, a entender a natureza. Não mais curamos doenças expulsando demônios. Desde àquele tempo, os homens têm estudado o corpo humano, tem construído hospitais e tratado doenças cientificamente. A ciência é que é a responsável pela construção das estradas de ferro e pontes, dos barcos-a-vapor, das linhas telegráficas, das cidades e vilas, das grandes e pequenas edificações, dos encanamentos e saneamentos, dos suprimentos alimentares, e das milhares e incontáveis utilidades que agora temos como necessárias à vida. Sem ceticismo e dúvida, nenhuma dessas coisas teriam sido concebidas ao mundo.   

O temor de Deus não é o início da sabedoria. O temor de Deus é o perecer da sabedoria. Ceticismo e dúvida levam ao estudo e à investigação, a investigação é o introito da sabedoria.

O mundo moderno é um filho da dúvida e da investigação, o mundo antigo do medo e da fé.

Notas do Tradutor:

[1] Traduzi “doubter” para “alguém que duvida.”
[2] Tomei a liberdade de traduzir “monstruosity” como aberração com o intuito de melhor adequar o contexto.
[3] Traduzi “wholesale butchers” (“açougueiros por atacado”, literalmente do inglês) para “carniceiros atacadistas.”


Sobre o autor:

Clarence Seward Darrow (1857 - 1938), filho de um ardente abolicionista, foi um advogado estadunidense e influente membro da União Americana Pelas Liberdades Civis. Tornou-se mundialmente conhecido por suas defesas em julgamentos de casos excepcionais que marcaram o século passado, tal como o Caso do Macaco” (Scopes Monkey Trial) em 1925, opondo-se ao orador e fundamentalista William Jennings Bryan pela defesa de John T. Scopes, professor que fora preso por lecionar evolução em uma escola do Tennessee. Conhecido por sua exímia oratória e eloquência, é considerado uma das maiores figuras da história do Direito norte-americano, logrando interpretações no cinema, uma delas na pele do icônico Spencer Tracy em “O Vento Será Tua Herança” (1960), nomeado a quatro Academy Awards. Darrow também era publicamente conhecido ao longo de todo o seu país por suas posturas céticas e críticas quanto à religião. Além de “Por que sou agnóstico?”, dentre outros ensaios publicados pelo autor  estão “O Mito da Alma” e “Encarando a Vida Destemidamente”.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

150 anos de "Uma Noite no Monte Calvo"



Neste ano, dia 23 de junho, completam-se 150 anos, considerando-se o calendário gregoriano, da composição de uma das maiores obras do repertório musical russo: “Uma Noite no Monte Calvo” do genial Modest Mussorgsky. Nutro uma admiração ímpar por esta peça desde que a escutei pela primeira vez na casa de meu avô, considerando-a uma das mais originais, criativas e intensas que já cruzaram meus ouvidos. Trata-se de um dos primeiros poemas sinfônicos da história russa. Dada a inquietante ausência de material em português acerca desta obra-prima e de sua fascinante concepção, decidi redigir este artigo com o fito de trazer um pouco da essência de sua história. Intento, pois, agir em nome de seu legado.

Talvez nenhuma composição tenha logrado tão fantasticamente um cenário frenético, demoníaco e macabro quanto os acordes de trovão desta obra. Seu ar trevoso assombra seus ouvintes há pelo menos um século.

O poema sinfônico “Uma Noite no Monte Calvo”, súmula da perdição, retrata um episódio em que bruxas, espíritos malignos, almas condenadas e asseclas do demônio reúnem-se em um ritual de sabbath no cume de uma montanha desolada para invocar Satã, intermediado por cultos de feitiçaria. Neste desenlace horripilante, as amaldiçoadas criaturas dançam furiosa e libidinosamente madrugada adentro louvando seu mestre. “Monte Calvo”, de acordo com a tradição eslávica oriental, seria o Lysa Hora, uma montanha do Cáucaso localizada na cidade de Kiev, capital da Ucrânia, palco de muitas das lendas mitológicas do povo eslavo. A inspiração de Mussorgsky para compor este poema de tom foi a leitura do conto “Noite das Bruxas” do consagrado escritor russo Nikolai Gogol. “Calvo”, da tradução russa, é um adjetivo para se referir a uma montanha desolada, desprovida de árvores. 

Lysa Hora, Ucrânia, ao poente. 


Diferentemente de muitas peças do gênero, e até mesmo de suas próprias, Mussorgsky a finalizou originalmente em uma investida só. Tão somente doze dias de composição e pura ignição criativa. Ele nem mesmo procurou partir de um rascunho a ser esculpido com o tempo, atirou-se imediatamente a fluir sua inventividade ao piano e voilà, cá reside uma das peças mais icônicas do romantismo e cultura czaristas.

A peça foi concebida no dia da Véspera de São João, dia 23 de junho de 1867, disto decorre o título original da peça, Noite da Véspera de São João no Monte Calvo. O nome provém de João Batista e está atado a antigos rituais pagãos, possivelmente rituais de fertilidade, que eram festejados no dia do solstício de verão. A Igreja Ortodoxa manteve a data do ritual, porém alterou seu significado para uma celebração religiosa cristã, declarando-a um dia de festividades em homenagem a João Batista.

Mussorgsky trabalhou com diversas versões deste trabalho, adaptando-o duas vezes e alterando algumas partes. Originalmente, sua ideia era uma ópera calcada na estória escrita por Gogol intitulada “Véspera de São João”, cujo enredo envolvia bruxaria. Posteriormente, considerou redigir uma ópera diferente, baseada em uma peça de seu amigo, o Barão Georgiy Mendgden, chamada “A Bruxa”. O intuito do jovem compositor era que sua criação fosse em forma e caráter, russa e original, certificando-se de que estivesse completamente de acordo com a tradição popular e folclórica russa.

A versão original tinha um enredo desenvolvido em quatro partes. O entrecho seguia assim: bruxas assemblavam-se no cume da montanha, tagarelavam, faziam travessuras e pregavam peças enquanto aguardavam a chegada de seu supremo, Satã. Em sua chegada, rodeavam-no o trono em que se sentava, e cantavam em seu louvor. Quando Satã satisfazia-se com seu enaltecimento, escolhia para si as bruxas que o despertavam o desejo. O programa musical da peça dividia-se da seguinte maneira:

1.     Reunião das bruxas, suas falas e prosas; 

2.     Jornada de Satã;
3.     Louvores obscenos de Satã;
4.     Sabbath.

Infelizmente, este exímio artista jamais chegou a apreciar a execução de sua obra em vida, uma vez que seu trabalho fora rejeitado por Balakirev, seu mentor, que a criticou em demasia, considerando-a uma bagunça. Suspeita-se, atualmente, que a balbúrdia sonora não tenha sido incidental, acreditando-se que um fraseamento musical perdido, uma linearidade por vezes não tão evidente, motivos atônitos e eventuais notas dissonantes foram premeditadas a fim de produzir uma sensação de um cenário infernal. De todo modo, Mussorgsky ficou muito descontente em frente à rejeição, porém não entregou as pontas e retomou sua composição. 

A solução encontrada por Mussorgsky para apresentar sua criação aos ouvidos do mundo foi converter a peça isolada em uma cena de uma de suas óperas em produção. Inicialmente, apareceria em Mlada de 1872, que não veio à tona, uma vez que fora cancelada. Insistente e esperançoso, o russo natural de Karevo retoma a produção e desta vez reforma sua peça, ajeitando uma porção de motivos e fraseamentos, deletando diversas partes e inserindo árias para coro. Dois anos mais tarde, Mussorgsky inicia a composição do libretto de sua nova ópera, “A Feira em Sorochyntsi”, uma ópera cômica dividida em três atos, baseada no conto homônimo de, novamente, Gogol. A ópera continuaria em elaboração até 1880, pouco antes da morte do autor e, destarte, também inacabada. 

Beberrões a cantarolar, ciúmes, danças típicas, contos folclóricos, bruxaria, pessoas dotadas com efervescente fonte de energia, constituem a obstinada trama no coração do mercurial truque de Mussorgsky nesta sua nova ópera. A fábula de um demônio dipsómano a procura de um vestido vermelho conduz o terror aos corações dos habitantes e dos viajantes supersticiosos na pequena aldeia ucraniana de Sorochyntsi, incluindo o fazendeiro Cherevik. Sua filha, Parasya, ama Gritsko, o camponês, mas não tem permissão de seu pai para casar-se com ele pois sua procrastinada madrasta, Khivrya, que torna a vida de seu marido uma miséria, acha que um rapaz humilde e plebeu é assaz ralé. Todavia, qualquer um que saiba usar a superstição terá os ventos a soprar a seu favor. Quadros impolutos em uma sequência desprendida, casualmente desconectada, recheiam a ópera inacabada com uma rica e folclórica vivacidade. A façanha de Mussorgsky, então, para preservar seu tenebroso poema sinfônico foi inclui-lo como uma cena intermezzo do primeiro ato que ficou conhecida como “Visão dos Sonhos de um Camponês”, em que Gritsko está a dormir de roncar após uma conversa sobre diabruras e tem um sonho em que este presencia um rito satânico onde reúnem-se bruxas, duendes e demônios a cultuar Chernobog, o eslávico deus das trevas. A adoração é praticada até que o soar dos sinos de uma igreja enfraquece e espanta os seres de volta ao submundo. O novo programa da cena agora é:
  1. Rugidos de criaturas subterrâneas, proferindo palavras inumanas; 
  2. O reino subterrâneo das trevas emerge e zomba do aldeão adormecido;
  3. Presságio da aparição do demônio Chernobog;
  4. O campesino aparta-se dos espíritos sombrios. Chernobog irrompe;
  5. Veneração de Chernobog e missa negra;
  6. Sabbath;
  7. No momento mais selvagem do Sabbath, o soar de um sino de uma igreja. Chernobog encobre-se e esvai-se;
  8. Sofrimento dos demônios;
  9. O clero da igreja canta;
  10. Desaparição dos demônios e despertar do camponês. 
Satanás sentado em seu trono ao centro de um sabbath de bruxas. Duas bruxas cozinham crianças desmembradas em seu caldeirão; os demônios deleitam-se deles à esquerda. Gravura de linha de Bartholomeus Spranger datada do século XVIII, cortesia de Wellcome Library, Londres. 

Nikolai Rimsky-Korsakov, restaurador e autor
da versão  mais conhecida da obra.
A versão mais conhecida e ouvida de “Uma Noite no Monte Calvo”, em verdade, é uma revisão, ou melhor, uma reconstrução de um amigo de Mussorgsky e um dos grandes compositores russos do romantismo czarista, Nikolai Rimsky-Korsakov. Este tomou a liberdade de legar o trabalho de seu amigo, na época já falecido, e finalmente torna-lo acessível ao público pela primeira vez desde sua primeira e sinuosa versão de 1867. Em síntese, a intervenção deste foi possibilitar que o esforço de Mussorgsky não tivesse sido em vão. Para tanto, Korsakov transpareceu a obra deixando-a novamente apenas como um poema sinfônico e ajeitou e corrigiu pontos aqui e acolá, além de retirar algumas barras, acertar o tempo, remover alguns trechos tidos como desnecessários ou excessivos, aproximando um pouco a composição dos ares mais germânicos apreciados na época. A tão sonhada execução finalmente ocorreu e não poderia ser diferente, foi um sucesso de primeira instância! A 15 de outubro de 1886, quase duas décadas após o original, o poema é executado pela Orquestra Sinfônica Russa em São Petersburgo, sob regência do próprio Rimsky-Korsakov. Recordações manuscritas deste contam que a peça era desejada de novo e de novo, incessantemente, pelo público. Até hoje é um dos favoritos nos concertos.  

Chernobog sumonando as almas condenadas
ao cume do Monte Calvo em Fantasia da Disney.
Tão famosa quanto a versão de Rimsky-Korsakov, é o arranjo orquestral de 1940 do imortal maestro Leopold Stokowski, que, encarregado pela nova longa-metragem da Disney, Fantasia, empreendeu uma restauração e aprimoramento da versão conhecida de Korsakov que estrelou no último item do programa do filme. A versão de Stokowski inclui acordes dissonantes do ensemble de cordas para realizar um efeito de redemoinho fantasmagórico, algumas mudanças no tempo, redução a uma oitava abaixo em alguns pontos fitando um som mais sinistro e uma explosão irada decrescente encerrada por um gongo antes do soar dos sinos. O final também foi alterado para obter uma conexão motivacional com a delicada e celestial “Ave Maria, op. 52” do austríaco Franz Schubert.  

Um pouco sobre a vida do gênio russo, arquiteto por detrás do poema

Mussorgsky não recebeu educação formal em teoria musical, sendo, pois, autodidata, aprendendo o piano sozinho em sua própria casa. Talvez seja esta a razão pela qual não logrou tantos trabalhos publicados quanto seus compatriotas russos. Desde criança sonhava em ser músico e libretista. Por tradição da família, encetou carreira como cadete na Academia Militar da Guarda Imperial. Lá teve a oportunidade de conhecer Balakirev, seu mentor musical, bem como outros intelectuais da música, um deles César Cui. Desligou-se da vida militar em 1858 em função de uma crise nervosa.

Apesar de ter nascido em uma família abastada, Mussorgsky caminhou em direção à pobreza até o fim de sua vida, pois certa vez sua família teve uma enorme perda de propriedades, deixando-os miseráveis. Este triste inesperado foi pivotal para algo que lhe levaria à morte anos depois, o alcoolismo. O mal ainda piorou após a morte de sua mãe em 1865. Conta-se que o jovem compositor, em seus últimos anos, vivia em constante bebedeira por bares pocilga. Uma triste anedota deste período final de sua vida relata que certa vez apareceu a um amigo em pleno pânico e disse “nada resta senão mendigar” e então colapsou, seguido de quatro convulsões sucessivas.

Mussorgsky faleceu em virtude de seu uso abusivo de álcool em 1881, sem um tostão sequer. Hoje é considerado largamente pela comunidade acadêmica e especialistas da música como o mais original e majestoso dos “Cinco”. O Grupo dos Cinco foi um conjunto de compositores russos, situados em São Petersburgo, que tinham como meta a elaboração de músicas puramente russas, em oposição ao famigerado germanismo europeu com figuras do quilate de Wagner e Beethoven, e buscavam retratar fielmente os costumes e contos de sua terra e, por isso, amplamente tidos como nacionalistas. Compunham o grupo: os já citados Balakirev, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov, além de Cui e Borodin.  

Escute algumas versões deste clássico

Versão restaurada de Rimsky-Korsakov, a mais conhecida. [ Acesse aqui ]
Versão original, Noite da Véspera de São João no Monte Calvode 1867. [ Acesse aqui ]
Versão operística, Visão dos Sonhos de um Camponês. [ Acesse aqui ]
Versão arranjada por Leopold Stokowski, estrelado em Fantasia. [ Acesse aqui ] 




sábado, 28 de janeiro de 2017

Jóias da Música

Caros veneradores da música erudita, anuncio-vos minha lista de reprodução Jóias da Música, carregada no YouTube a partir do CD "Jóias da Música Volume 4".

Prema aqui para aceder à lista de reprodução.

Playlist:
01 - A Manhã de "Peer Gynt" - Edvard Grieg (3'42)
02 - Do Danúbio Azul - Valsa - Johann Strauss II (10'00)
03 - Chega dos Convidados - Richard Wagner (6'38)
04 - Cena de "O Lago dos Cisnes" - Pyotr Tchaikovsky (2'35)
05 - Andante - W. A. Mozart (6'24)
06 - Sinfonia N° 4 em Mi Bemol, A "Romântica", Scherzo - Anton Bruckner (10'41)
07 - "La Traviata", Prelúdio do 1° Ato - Giuseppe Verdi (3'40)
08 - Da Suíte N° 2 "Badinerie" - J. S. Bach (1'27)
09 - Concerto para Órgão e Orquestra N° 2, Abertura, Grave - G. F. Haendel (1'50)
10 - Rapsódia Húngara - Franz Liszt (11'58)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Belos Clássicos

Caros veneradores da música erudita, anuncio-vos minha lista de reprodução Belos Clássicos, carregada no YouTube a partir do CD "Os Mais Belos Clássicos Volume 3" produzido pela Deutsche Grammophon e PolyGram, compilada em 1995.

Prema aqui para aceder à lista de reprodução.

Playlist:
01 - Abertura de Tannhäuser - Richard Wagner (14:43)
02 - A Bela Adormecida - Pyotr Tchaikovsky (6:59)
03 - Toccata & Fuga, em Ré Menor, BWV 565 - Johann Sebastian Bach (8:22)
04 - Sonho de uma Noite de Verão: Marcha de Casamento - Felix Mendelssohn (4:27)
05 - Quinteto de Cordas em Mi Maior, G. 281 - Luigi Boccherini (3:20)
06 - Suíte de Carmen - Georges Bizet (9:01)
07 - Scheherazade, Op. 35 - Nikolai Rimsky-Korsakov (9:56)
08 - Pavane pour une Infante Défunte - Maurice Ravel (6:14)
09 - Príncipe Igor - Aleksandr Borodin (14:05)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um copo de chope e a altura de um cone

Num dia de muito calor Augusto senta-se à mesa de um bar e pede um chope. Nesse lugar, o chope é servido em “tulipas”, que são copos com a forma de um cone invertido.
No preciso instante em que o garçom traz a bebia, chega à mesa de Augusto o seu amigo João.
— Como vai, João? Sente-se e tome a metade deste copo de chope. Eu tomo a outra metade.
A fisionomia de João mostra alguma surpresa. Como determinar a metade do conteúdo do copo, se o copo é cônico? 
Augusto alivia a situação. 
— Meu caro amigo! Com a ajuda de uma régua e de uma calculadora, podemos resolver o nosso problema.
Augusto então saca de sua régua, calculadora e caneta, escrevendo a solução num guardanapo, sob o olhar estupefato do garçom.
— Observe, João, que o copo tem 20 cm de altura. Desejamos obter a altura da superfície do líquido que corresponda à metade do volume do copo. Para isso, precisamos recordar dois teoremas.
Teorema 1: Toda seção paralela à base de um cone forma um outro cone semelhante ao primeiro.
Teorema 2: A razão entre o volume de sólidos semelhantes é igual ao cubo da razão de semelhança.
E continua a explicação.
— Se você tiver tomado uma parte do conteúdo deste copo, teremos aqui, pelo teorema 1, dois objetos semelhantes: o cone formado pelo líquido e o próprio copo. A razão de semelhança entre esses dois cones é a razão entre suas alturas, ou seja, h/20. Como desejamos que o líquido tenha a metade do volume o copo, pelo teorema 2 podemos escrever: 1/2 = h^3/20, isto é, h/20=1/∛2.
Assim, a altura que corresponde à metade do volume do copo é h = 10∛4 cm.
João concorda com a perfeita explicação, mas repara que a resposta não resolve ainda o problema porque ele não tem a menor ideia de quanto é 10∛4 cm. E então Augusto, com a sua calculadora e seu sorriso irônico, diz:
— Ah! É bom saber que esse valor dá aproximadamente 16 cm.
Bem, o problema foi resolvido e o chope, já meio quente, foi adequadamente dividido. Falta apenas o final da história. 
Nessa altura, as pessoas das outras mesas ouviam atentamente nossos personagens com um misto de admiração e espanto. Nisso, João faz uma descoberta, que anuncia em alto e bom som: 
— Este problema me revela que quando somos servidos em tulipas com 4 cm de colarinho estamos tomando apenas metade do conteúdo do copo. Assim, se eu digo que tomei 10 chopes, na verdade tomei 5, mas paguei 10!
E foram expulsos do bar. 

Fonte: Eduardo Wagner, Revista do Professor de Matemática, n° 25, p. 10, SBM, 1994 (adaptado).

domingo, 6 de novembro de 2016

Lovers Concerto

Aos entusiastas da música erudita: carreguei em uma lista de reprodução no YouTube o CD "Lovers Concerto", volume 10, Digital Recording DDT Stereo, produzido pela Movieplay.

Clique aqui para acessar a lista de reprodução.


Playlist:
01 - O Amor Bruxo - M. de Falla (4:24)
02 - Quinteto de Piano em Lá Maior Op. póstumo 114, D 667 "A Truta" - F. Schubert (7:44)
03 - Os Planetas: Netuno - O Místico - G. Holst (7:49)
04 - Cigana, Rapsódia de Concerto para Violino e Orquestra - M. Ravel (11:01)
05 - Evgeny Onegin, Valsa & Coro Ato II - P. I. Tchaikovsky (6:15)
06 - Concerto de Piano No. 2 em Si bemol maior Op. 83, Andante - J. Brahms (12:42)
07 - Don Pasquale: Coro de Servant - G. Donizetti (3:33)
08 - Quadros em uma Exibição: O Grande Portal de Kiev - M. Mussorgsky (5:56)
09 - La Campanella (O Sino): Rondó para Concerto de Violino No. 2 em Si menor Op. 6 - N. Paganini (6:04)
10 - Um Sonho de uma Noite de Verão, Scherzo Op. 61 - F. Mendelssohn-Bartholdy (5:24)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Famous Opera Marches

Para os apreciadores de música erudita: carreguei em uma lista de reprodução no YouTube o CD "Famous Opera Marches", produzido pela Allegro, contendo prestigiadas marchas operísticas executadas pela Orquestra Sinfônica da Rádio Bratislava sob regência do maestro Ondrej Lenárd.

Clique aqui para acessar a lista de reprodução. 


Playlist:
01 - Marcha Turca - Beethoven
02 - Marcha dos Sacerdotes - Mendelssohn-Bartholdy
03 - Marcha de Aida - Giuseppe Verdi
04 - Abertura do Holandês Voador - Richard Wagner
05 - Marcha de Coroação - Giacomo Meyerbeer
06 - A Perdição de Fausto - Hector Berlioz
07 - Marcha de Casamento - Mendelssohn-Bartholdy
08 - Marcha de Tchemor - Mikhail Glinka
09 - Marcha Jubilosa - Emmanuel Chabrier
10 - Uma Noite no Monte Calvo - Modest Mussorgsky 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...